Epitácio Pessoa e Philarmônica

Alguns mitos passam a vida inteira e não são reconhecidos como referência em sua terra natal. O que dizer então dos que passam por um lugar, mudam a vida e forma de pensar de uma cidade e mesmo assim, não são reconhecidos como tal. Nem se quer com importância e referência que merecem na memória histórica de uma província. O que se pode fazer em três anos quando se é à frente do seu tempo.

A memória de um povo é curta, e ponto! Não tem jeito. O que se precisa é trabalhar essas memórias desse povo. E Trabalhar com a memória de um povo é educar, é criar uma base para que dela se erga um futuro, que o povo tenha orgulho da sua aldeia criando uma grande ligação com sua cultura, erguendo um braço forte para essa sociedade. Porém é preciso planejamento educacional, um plano de governo educacional voltado para história da cidade, sobre seus antepassados.

Planejar formas educacionais “verdadeiras” e executar de maneira correta e eficiente, não como é feita hoje, na politicagem, para arrecadar mais votos para os quatro anos seguintes, e depois vir outro político e acabar com toda uma farsa e ainda piorar. Por que quando se monta uma escola, deve-se planejar toda uma estrutura e recursos para que se desenvolva e provoque novos formadores de opinião, não é só fazer um prédio e divulgar que fez mais escolas. A vida útil desse prédio deve ser longa e favorável à sociedade local.

Minha geração foi criada e alimentada de falsas histórias de portugueses e sua “colonização”, hoje podemos chamar facilmente de terrorismo e genocídio a forma que fomos colonizados, sem planejamento futuro nenhum. Fomos devastados e usados como peças de curiosidades para os europeus. Até mesmo nossa verdadeira língua foi quase que totalmente aniquilada. Éramos 1.078 tribos, hoje reduzidos a 180 e uma língua portuguesa, claro, a dos “bravos colonizadores que erraram o caminho para as índias”.

Não é diferente do resto do país, a memória do município do Cabo de Santo Agostinho. As coisas na província Agostiniana são feitas nas “coxas” e feito assim, não temos uma projeção futura.

É uma guerra achar as referências locais. Referências essas que em certo ponto viram alusões nacionais, como é o caso do Epitácio Pessoa que mesmo não sendo nascido em Santo Agostinho, foi peça fundamental na continuidade da música no formato de bandas sinfônicas e nas artes cênicas do município. Homem responsável pela popularização do rádio no país, Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil e tantas outras coisas que pode fazer qualquer nordestino se orgulhar de verdade por ter nascido nessa terra abençoada.

O menino Epitácio nasceu na cidade de Umbuzeiro no ano celestial de 1865 no estado da Paraíba. Logo cedo aos oito anos de idade, ficou órfão de pai e mãe, foi morar com o seu tio em Recife, Henrique Pereira de Lucena, o grande e único barão de Lucena.

Epitácio teve toda sua formação educacional e política no estado de Pernambuco. Estudou no Ginásio Pernambucano e depois na tão conceituada faculdade de Direito de Recife.

Em 1887, assumiu a comarca do Cabo de Santo Agostinho como promotor público. Em Santo Agostinho, ele fez amizades. Umas das poucas coisas que encontramos sobre Epitácio Pessoa é sobre seu lado Boêmio.

Conta Lacerda, em seu livro histórias do Cabo, nos volumes I e II, que o rapaz Epitácio era um jovem boêmio, que vivia nas madrugadas com violão na mão, junto com os amigos. Sempre de branco percorrendo a Rua da Matriz* cantarolando cantigas românticas. E que muito provavelmente em uma dessas reuniões, sugeriu aos amigos da época a criação de uma banda de música e assim foi fundado o Clube Filarmônica Cabense.

Vejamos o que diz Israel Felipe sobre o jovem Epitácio Pessoa no seu livro antológico História do Cabo publicado em 1962.

“A partir de fevereiro de 1887 exercia o cargo de promotor público da comarca um jovem bacharel que, pela sua fidalga cultura e dons artísticos, cativou a sociedade cabense. Não fôra outro senão o grande Epitácio da Silva Pessoa, cuja carreira política o coloca na galeria em que figuram os maiores vultos da nossa pátria”.

Epitácio Pessoa, além de estar na história do país como um grande vulto da pátria, como diz Israel Felipe, não por acaso, mas sim por possuir grande competência e sabedoria. Foi um dos mais jovens a exercer a cadeira de deputado aos vinte e cinco anos. Ministro do supremo tribunal federal aos trinta e seis anos. Figura importantíssima, quando Ministro da Justiça, designou a Clóvis Bevilaqua para que redigisse o Código Civil Brasileiro, engrandecendo sua gestão. Epitácio foi também designado para chefiar a delegação brasileira na Conferência de Paz, em Versalhes na França. Chegando a presidência da república em 1919.

Conhecedor da lei, político com grande coração e artista. Muitos administradores do poder público de hoje deveriam se inspirar em Epitácio Pessoa e na sua história de vida. Até porque eles aprenderam na escola sobre os vultos da pátria, e se não estudaram sobre o Dr Epitácio, é sinal que não tiveram um bom ensino, e se não tiveram um bom ensino, deveriam lutar por essas questões sociais e educacionais de hoje. Mas parece que eles não estão muito preocupados com isso, por motivos que parecem óbvios vendo o quadro administrativo e educacional, o passado e o atual, do nosso país.

Será que os políticos de Umbuzeiro na Paraíba, terra natal de grandes ilustres como Epitácio Pessoa, João Pessoa e Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, ou simplesmente Chatô. Será que eles têm a consciência dos grandes homens que pariu essa terra? Rezamos e esperamos, mesmo que desconfiados, que sim, que eles estejam ou já tenham feito algo.

Durante o tempo que Epitácio morou na comarca do Cabo de Santo Agostinho ele deu um passo importante para banda de música, e consecutivamente para o teatro local. E por isso deveria ser lembrado e reverenciado até hoje, mas isso infelizmente não acontece. O jovem Epitácio Pessoa foi peça fundamental dessa engenharia artística, já que relatos da época nos contam isso. Vejamos o livro História do Cabo de Israel Felipe.

“Encontrando ambiente favorável ao espírito de beletrista, o jovem Dr. Epitácio Pessoa incentivou os rapazes que representavam as artes e as letras cabenses, naquela época, e que já haviam fundado um grêmio literário, fato esse ocorrido no dia 7 de setembro de 1884.Numa das tertúlias realizadas na sede do Grêmio Literário da cidade, o Dr. Epitácio sugeriu a criação de uma banda de música. A ideia encontrou a maior receptividade. Por isso que, transcorrido quatro anos de fundação do grêmio, nasceu a Filarmônica em 03 de Setembro de 1888. Seus estatutos foram redigidos por pelo Dr. Epitácio”.

Esse foi o início do que seria dali a 26 anos, a fundação da Filarmônica 15 de Novembro Cabense, instituição centenária na província Agostiniana. A iniciativa deu uma acelerada na vida artística da cidade, vindo outras bandas, sempre por descendentes de membros do Grêmio Literário e claro dos Artistas criadores da primeira organização musical harmônica do Cabo de Santo Agostinho. Vindo junto não só outras bandas, mais Grupos Teatrais, associações dançantes, vindo á tona os brincantes e até mesmo grupos de dança.

Não que a vida musical do Cabo tenha partido dessa iniciativa dos rapazes do grêmio junto com os artistas, mas foi sem dúvida um grande passo para que a musicalidade local se tornasse ampla e rica como é hoje. Embora mal administrada pelos governantes e artistas locais. Artistas esses que ainda não sabem a força que juntos eles tem. E preferem esperar ou se juntar ao poder, para nada poder.

Desde a ideia da primeira banda de música até a primeira formação da Filarmônica 15 de novembro, foram 26 anos de muita criatividade. Partindo da ideia de Epitácio, surgiu o Clube Filarmônico Cabense, (conhecida como “Bacurau”) onde o jovem promotor redigiu os estatutos da banda pelo próprio punho. Os primeiros Ensaios foram realizados na sacristia da matriz, e seu corpo de músicos era a maioria de funcionários da estrada de ferro.
Logo depois houve uma fusão entre os sócios do clube filarmônico e em comum acordo com os do Grêmio resolveram fazer a mistura das duas agremiações. Assim nos conta Israel.

“Meses depois de fundado o Clube Filarmônico Cabense, os seus sócios, de comum acordo com os do Grêmio Literário da cidade do Cabo, convocaram uma assembleia geral no sentido de proceder a fusão das duas agremiações, o que realmente foi resolvido. Assim surgiu o clube em Epígrafe, procedendo-se, para acomodar a dualidade, uma adaptação nos respectivos estatutos. (A adaptação foi feita pelo dr. Epitácio)”.

“Não se passaram, porém, muitos meses de ter havido a fusão, por motivo da rigorosidade dos estatutos, que proibiam a aceitação de sócio de cor, houve dissenção entre os membros da diretoria, resultando no afastamento irrevogável, dos diretores Leodegário Ribeiro Varejão e José Bem-te-vi. Essa divergência de opiniões nasceu pelo fato de ser recusada a proposta para sócio, de um cidadão distinto, de nome Rafael Tobias, sob alegação de ele não preenchia as condições estatutárias”.

Outros desentendimentos aconteceram entre os diretores do Clube Filarmônico e Grêmio Literário Cabense, para que se fomentasse ainda mais nossa história musical. Em 2007, em uma entrevista que fiz para o programa Radiofônico Nação Cultural com o Maestro Domingos Sávio, ele fez um resumo das Histórias do livro de Israel Felipe:

Domingos Sávio – “A Filarmônica é a mãe dessa vertente musical, relacionada a instrumentos de sopro, a cultura musical de banda. Até onde se tem registro, surgiu em 1888, a partir de uma ideia de Epitácio Pessoa, que era seresteiro e boêmio. Aquele mesmo Epitácio que foi Presidente da República. Ele era promotor da comarca do Cabo, e ele lançou a ideia de criar uma banda de música que teve início em 03 de Setembro de 1888, inclusive era uma visão extremamente arrochada para a época, porque eles idealizavam fundir grêmio literário, escola de couro, banda de música e ainda disponibilizar uma biblioteca para os sócios e amigos. Depois de alguns anos, esse projeto começou a apresentar dificuldades em virtudes da discriminação racial, alguns conservadores não aceitavam o fato de NEGROS fazerem parte da diretoria, e isso levou a um racha e essa atividade parou por vários anos. Então surgiu novamente em 1914, onde alguns dissidentes resolverão reorganizar a banda de música, e é por isso que agente tem Filarmônica 15 de Novembro Cabense essa é de 1914”.

A Verdade dessa ideia “arrojada” de projeto era a busca por mais sócios. Esses desentendimentos entre diretores do Clube Filarmônico e Grêmio Literário Cabense, fizeram surgir mais duas bandas, a primeira num período curto de tempo a Sinfonia do Cabo, e em 1904 é que surge a Sociedade Musical 30 de Julho, a famosa “Jaguara”.

A Sinfonia do Cabo foi fundada por ex-diretores e membros do Clube Filarmônico e Grêmio Literário Cabense, como a Sociedade Musical 30 de Julho, a “Jaguara”, frutos das brigas dos membros do Clube Filarmônico e Grêmio, aqui já citados. É importante lembrar que o Clube e o Grêmio não finalizaram suas atividades, mesmo depois das separações e aparecimento de outras bandas harmônicas, e continuaram com outros diretores.

Sobre as bandas Clube Filarmônico Cabense “Bacurau”, Sinfonia do Cabo e a Sociedade Musical 30 de Julho “Jaguara” existem histórias maravilhosas contadas por Israel em seu livro História do Cabo.
O fim da musicalidade Cabense construída pelo Clube Filarmônico Cabense e Grêmio Literário veio ao por mudanças das oficinas ferroviárias para a cidade de Jaboatão, e por questões políticas. O engraçado disso, é que até hoje a arte do povo Agostiniano de certa maneira sofre da mesma doença de cem anos atrás, a tão presente, e velha, má administração política.

Assim escreveu Israel para a posteridade.

“A “Bacurau” e a “Jaguara” marcaram época. Tanto uma como outra caprichavam nos ensaios, Procurando conseguir ostentar o maior repertório. E, toda vez que se oferecia oportunidade, elas realizavam verdadeiros torneios musicais, aplaudidos calorosamente pelos inúmeros partidários, indo, às vezes, os debates que começavam ao anoitecer, até as nove ou dez horas da manhã do dia seguinte. Geralmente as duas bandas de música só se retiravam de seus coretos por solicitação de uma comissão de pessoas gradas. Faziam-se sob aclamações entusiásticas. A “Jaguará” extingui-se em 1911 em virtude da transferência das oficinas de estrada de ferro para Jaboatão”.

“Quanto a “Bacurau”, ainda sobreviveu até fins de 1912. Dois fatores contribuíram para a dissolução da excelente filarmônica. O primeiro foi a perda do elevado número de sócios com a mudança das oficinas ferroviárias. O segundo, a reviravolta política de 1911. O partido conservador caiu no ostracismo. Os inimigos políticos do dr. Antônio de Souza Leão moveram uma campanha tremenda contra a música, sob a alegação de que não passava de uma propriedade daquele ex-prefeito, não obstante os estatutos do Clube Filarmônico e Literário Cabense preceituarem que ele não tinha partido político nem religioso. Ainda que o dr. Antônio de Souza Leão continuasse a prestigia o clube financeiramente, a diretoria viu-se na contigência de promover a sua dissolução. Nessas conjunturas, convocou-se uma reunião na qual ficou deliberado leiloar o pequeno patrimônio do clube para fazer face às dividas. Então lavrada uma “ata de Extinção”. Nesse documento ficou declarado que não seriam posto em leilão o estandarte e o instrumental. Estes ficariam custodiados para ser entregues a outra sociedade de congênere que fosse fundada no Município, mediante apresentação dos respectivos estatutos juntamente com o certificado de registro no cartório competente. Os aludidos objetos ficaram confiados à guarda do sr. Florentino Cavalcanti de Albuquerque, mais conhecido pela alcunha de “Vigário sem coroa”.

Mais uma vez, as mentes pensantes da política sendo irracionais e destruindo um patrimônio público, como as inúmeras praças e prédios, do povoado Agostiniano. É dinheiro do povo sendo queimado e utilizado como esterco ou para alimentar mais uma obseção por “perseguição Política”. Tivemos que enfrentar esse tipo de coisa, no passado e no presente. São inúmeros projetos culturais e educacionais colocados de lado como o mesmo propósito, o nada por nada, como se tudo não passasse de uma brincadeira ou manobra política para eleger mais um candidato aclamado pelo “povo”. Observamos calados e esperamos por São Sebastião e seus Soldados, invadindo a cidade e decapitando os meliantes e desfilando com suas cabeças penduradas nas lanças, em demonstração da força do bem contra o mal maior, o homem corrupto e sua política de desigualdade social. (Viva a são Sebastião!).

 

Alexandre Neres
Comunicador de rádio de poste, de rádio comunitária, hoje agitador Cultural se comunica através de Podcast e, Hora do Vinil e escreve para o projeto site cultural Quintalorando. Pai de Luisa e João. casado com Jaciara Marques.

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